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DSM na América Latina

Esta ex-companhia química se tornou "verde" e suas ações decolaram

25 set 2017 15:12 CEST

A DSM se reinventou para combater a fome e as mudanças climáticas

Essa reportagem foi publicada originalmente pela Revista Fortune e traduzida pela equipe de comunicação da DSM América Latina. A matéria original pode ser acessada pelo link: http://fortune.com/2017/09/12/dsm-green-company-stock/

O Project Liberty foi lançado em setembro de 2014 com ambições tão grandiosas quanto seu nome. O projeto, um protótipo de indústria nos arredores da pequena cidade de Emmetsburg, Iowa (EUA), seria a primeira planta de etanol celulósico do país com operação em escala comercial. O etanol celulósico, un biocombustível produzido não diretamente do cultivo de milho, mas sim de seus resíduos, como espigas e cascas, se transformou no santo graal do setor de combustíveis limpos. Seu potencial para minimizar a poluição era enorme, mas os avanços eram difíceis: muitas empresas tiveram de abrir mão da iniciativa e outras ficaram sem dinheiro durante as tentativas.

A DSM, uma companhia holandesa de nutrição e materiais, desvendou o código da bioengenharia. Desenvolveu enzimas e levaduras que transformam biomassa fibrosa e amadeirada em combustível; seu parceiro, Poet, um gigante americano do etanol, tinha o know-how da produção. A joint venture foi tão importante que o Rei da Holanda e o secretário americano de Agricultura Tom Vilsack (como ex-governador, uma verdadeira realeza de Iowa) foram até Emmetsburg para participar da cerimônia de inauguração.

Mas a DSM e seus parceiros não se atentaram a uma coisa: as pedras. Quando os agricultores colhiam os resíduos de milho, descobriram que não apenas obtinham biomassa; mas também restos de pedra, de peças de equipamentos agrícolas e outros objetos estranhos. Todos estes detritos entupiram o equipamento da planta e, em seus primeiros dois anos, o projeto Liberty não era mais que funcional.

Podia ter sido uma derrota – mas como em muitos outros projetos de vanguarda que a DSM se envolveu nos últimos anos, se transformou numa vitória. Os funcionários da planta desenvolveram uma solução, utilizando grandes ventiladores para separar os resíduos de milho dos detritos. O projeto Liberty agora produz caminhões de etanol celulósico todas as semanas. A planta está próxima da meta final de seus parceiros, de 20 milhões de galões por ano. Mas continua a ser um protótipo de sucesso e outra inovação ambientalmente responsável de uma empresa pouco conhecida, mas transformadora.

Ainda que poucos reconheçam a DSM por seu nome, os traços da companhia multinacional estão em toda parte. Produz ingredientes que compõem dezenas de alimentos e bebidas de marcas conhecidas. Estes mesmos ingredientes estão na nutrição animal e em uma série de produtos de cuidado pessoal, desde protetor solar até cosméticos de última geração (graças a este último, a DSM possui o maior criadouro de serpentes venenosas do mundo; o veneno proporciona agentes paralisadores para cremes de pele tipo Botox). Faz os plásticos que compõem o seu carro e que tornam seus equipamentos eletrônicos mais leves; pintam e recobrem suas paredes, pisos e paineis solares; e produz quase todas as vitaminas vendidas nas farmácias. Também em sua lista: o primeiro tapete totalmente reciclável, a fibra mais forte do mundo (usada em coletes à prova de balas, redes de limpeza oceânica e nos uniformes da equipe de ciclismo holandesa); e uma ajuda digestiva que faz as vacas soltarem menos gases.

O portfólio pode parecer uma enorme miscelânea, mas há um fio condutor para tudo isso: o negócio da DSM é melhorar o planeta e a vida das pessoas que vivem nele.

Esta é a visão que o CEO Feike Sijbesma estabeleceu há uma década, quando a DSM estava no negócio da química em massa e Sijbesma, um biólogo de formação, acabava de assumir o comando. Ele analisou as oportunidades que sua empresa tinha no contexto de obter sucesso financeiro e enfrentar os problemas globais mais urgentes. O mundo não precisava de outro "cracker" petroquímico. O que ele precisava era de soluções para a desnutrição e as mudanças climáticas. Consequentemente, Sijbesma acrescentou à assinatura de marca da DSM: "Pessoas. Planeta. Lucro". Desde então, a empresa canalizou sua proficiência em ciências aplicadas em novas direções inovadoras.

Sijbesma enxerga isto como uma boa estratégia: o propósito constrói e motiva talentos, e se adaptar a um mundo em constante mudança (“à prova de futuro”, como define Sijbesma) mantém as luzes de alerta acesas. Foi com este espírito que a empresa sofreu uma transformação radical, trocando negócios insustentáveis por outros mais sustentáveis. Sijbesma assumiu a liderança da companhia em 2007: logo vendeu o negócio de produtos químicos industriais de 2 milhões de dólares da DSM e sua unidade farmacêutica, enquanto realizava 25 adquisições importantes. Desde então, o negócio de nutrição humana e animal, com vendas de US$ 5.7 bilhões, praticamente dobrou. E, pelas contas da DSM, produtos que melhoram de forma mensurável o meio ambiente ou a saúde humana (em comparação com produtos concorrentes) representam 63% da receita, ante 34% em 2010.

Sijbesma conta que o mundo mudou para ele quando teve filhos. Não queria que seu legado fosse definido pelo Ebitda e pelo lucro líquido, diz: "As pessoas vão esquecer destes números". Em vez disso, queria ser guiado pelos princípios que poderiam aproximar seus colegas de trabalho. "Eles sentem orgulho ao poder dizer: ‘Nossa empresa está mudando o mundo, tornando o mundo mais limpo e a comida mais saudável’".

Até agora, no entanto, ele está obtendo êxito em ambas as frentes. Enquanto as receitas anuais de US$ 8,8 bilhões da DSM estão ligeiramente distantes de eram há uma década, o estoque cresceu 61% desde que a Sijbesma se tornou CEO - e os lucros aumentaram recentemente. Ainda assim, o sucesso não roubou a humildade de Sijbesma: ele sabe que o caminho para o sucesso não é geralmente uma linha reta

A intenção era ser uma arma para combater a "fome oculta" no acampamento de refugiados de Kakuma, no Quênia. O produto, um pó de micronutrientes chamado MixMe, é um antídoto simples e de baixo custo para a desnutrição e a anemia que afetavam os 50.000 residentes do acampamento. No entanto, quando o produto chegou ao acampamento em fevereiro de 2009, muitos residentes não tocaram no material.

O fato é que o MixMe - que vinha em um pequeno pacote de alumínio - se parecia muito com uma embalagem de camisinha. E os pacotinhos chegaram em uma caixa com uma ilustração de um homem, uma mulher e uma criança, uma tradicional família feliz (de tamanho ocidental). Esta embalagem envergonhou alguns e levantou a suspeita em outros – e os rumores eram de que o MixMe era um exercício sinistro de controle da população.

Desnecessário dizer que isso era tudo o que a DSM não estava procurando. O MixMe foi fruto de uma ambiciosa parceria com o World Food Programme e uma das primeiras incursões da DSM na concretização da visão de Sijbesma. "Tivemos de aprender da maneira mais difícil que nem todas as nossas normas e práticas ocidentais teriam a mesma aplicação em todas as geografias", admite Hugh Welsh, presidente da DSM na América do Norte.

Mas a DSM aprendeu. MixMe agora vem em um pacote maior e menos profilático. A parceria com o WFP floresceu: durante a última década, os produtos que a DSM ajudou a desenvolver tem alimentado uma média 31 milhões de pessoas por ano, segundo a organização. E a divisão do Programa de Melhoramento Nutricional da DSM, que fornece nutrientes para órgãos assistenciais e governos, tornou-se um negócio lucrativo e margem baixa. "Se não é rentável, não é sustentável", diz Welsh. "E se não é sustentável, não é ético”.

A DSM se esforça para reforçar esta ética internamente. Desde 2010 a companhia implementou uma política de bonificação para todos os seus 300 executivos pela qual a metade das compensações, de curto e longo prazo, em forma de bônus e opções de compra de ações, está vinculada a objetivos de sustentabilidade. Foram necessários cerca de três anos para adequar a mentalidade dos executivos (ou para que aqueles que não estivessem de acordo deixassem a companhia). Mas o progresso que a empresa fez teria sido impossível de outra forma. "Durante anos, tentamos encorajar os operadores de fábricas para aderirem à energia renovável ", diz Welsh. "Quando vinculamos esta retórica à remuneração, porém, de repente todos aderiram à ideia". Ele cita como exemplo a planta de vitaminas da empresa em Belvedere, N.J., agora alimentada, em parte, por um dos maiores campos solares em Nova Jersey.

Sijbesma estava há apenas um ano realizando a transformação para “Pessoas. Planeta. Lucro.” quando a crise financeira chegou. O CEO se lembra de estar em casa num fim de semana e pensar, "Todo mundo tem 'valores' quando as coisas estão bem"; não queria abandonar os seus só porque os tempos eram difíceis. Sijbesma se viu lutando uma batalha similar com os investidores também. Na assembleia anual de acionistas de 2010, um homem questionou os recursos que a DSM havia dedicado para ajudar o World Food Programme. Sijbesma estava consternado; muitos dos doadores do WFP já tinham reduzido consideravelmente suas contribuições, enquanto as necessidades tinham aumentado. Se negou a gastar um centavo sequer a menos no trabalho. Depois de que ele disse isso, foi aplaudido e uma mulher na plateia se levantou e gritou: "Este é o tipo de companhia na qual quero investir!”.

Não que a DSM seja inflexível com os acionistas. Em 2014, as ações foram atingidas pela depreciação do franco suíço e por problemas no mercado da vitamina E. Alguns pressionaram a empresa a quebrar. Enquanto a DSM resistia a essas pressões, implementou uma nova estratégia de economia de custos. Os investidores ficaram felizes, e a DSM cresceu mais eficientemente: os lucros aumentaram 604% em 2016, e 2017 está se mostrando ser também forte, mas a empresa nunca vacilou filosoficamente.

Enquanto isso, Sijbesma surgiu como um defensor do poder dos negócios para fazer o bem. Nos últimos anos, ele mobilizou a comunidade empresarial para combater a desnutrição e as mudanças climáticas. É o membro mais antigo do órgão consultivo do premiê da China, Li Keqiang, composto por CEOs globais, e tem lugar no conselho da Unilever, outra empresa que foca em produtos eco-friendly. "Muitos CEOs estão tão ocupados com sua carreira, que se esquecem do mundo lá fora e focam de forma míope nos acionistas", diz Paul Polman, CEO da Unilever. "Feike está tentando impulsionar mudanças mais amplas".

Em alguns casos, as inovações da DSM superaram a visião do mundo para tantas mudanças. A empresa enfrenta desafios, por exemplo, na busca de um mercado para o Clean Cow, sua solução para a flatulência bovina. A DSM desenvolveu o produto em parte com a premissa de que um imposto sobre as emissões de gases de efeito estufa era inevitável (calcula-se que as vacas produzem tantos gases quanto os carros). Mas por enquanto, o aditivo de alimentos, que deve compor as refeições do gado, tem um custo adicional que os agricultores não estão dispostos em absorver. Os governos expressaram entusiasmo, mas até agora não mostraram interesse em comprá-lo. A DSM está agora cortejando companhias lácteas como a Danone, que com o Clean Cow poderia promover un produto mais sustentável e reduzir drasticamente suas próprias emissões.

Depois de uma década no comando, Sijbesma parece otimista sobre estas frustrações de curto prazo. A experiência sugere que a DSM as resolverá: eles estão chegando lá. "Creio que seus valores são mais fortes que os revezes que encontrou durante a jornada", diz Polman.