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Megatendências: como alimentar o mundo?    

05/09/2019 | Autora: Fabiana Fontana - Analista de Inteligência de Mercado

 

Nosso mundo vem mudando drasticamente nos últimos anos, mais rápido que em qualquer outro momento da história. O que esperar do futuro?

 

Na tentativa de encontrar algumas respostas para essa pergunta, na Califórnia, Estados Unidos, foi lançado há alguns anos o livro “Megachange 2050”, estruturando algumas tendências e traçando possibilidades para o que nos espera nos próximos anos. Paralelo a isso, várias instituições, como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), têm feito o mesmo exercício.

 

Nesse contexto, vamos conversar um pouco sobre algumas tendências e nos questionar sobre nosso setor, nossos negócios e o importante papel de alimentar um mundo gigante e pungente que vem por aí - o qual nossas decisões de hoje influenciarão o futuro.

 

 

Nos últimos anos as mudanças foram rápidas e transformadoras:

 

Fortaleza 1980 - hoje

(@Info Tea Fotos)

 
Fortaleza 1980_hoje

Shanghai 1991 - 2010

(@Info Tea Fotos)

 
Shangai_1991_2010

A primeira grande tendência que vem redesenhando o mundo é  a mudança demográfica. O mundo deve ter 9,8 bilhões de pessoas em 2050 e 11,2 bilhões em 2100, estima a ONU (Organização das Nações Unidas). A média de idade deve aumentar em 9 anos. Seremos mais e mais velhos.

Em 2050, o terceiro país mais populoso será a Nigéria, que aparece hoje em sétimo lugar e que deve ocupar a posição dos Estados Unidos. Ainda, segundo o relatório, a população indiana, que atualmente aparece no ranking como o segundo país mais populoso do mundo com 1,3 bilhão de habitantes, superará o 1,4 bilhão de cidadãos chineses já em 2024.

Em conjunto com este carregador demográfico, o que puxa a carruagem é outro grande cavalo de batalha: o crescimento. Aproximadamente 50% do crescimento populacional virá dos países africanos. As implicações disso são refletidas na economia, enquanto os países ocidentais abrandam ao longo do próximo meio século, os da Ásia e da África aceleram à medida que têm, proporcionalmente, mais pessoas em suas forças de trabalho. A consultoria PwC prevê que sete das 12 maiores economias do mundo em 2030 já serão países emergentes.  

Isso terá impacto na oferta global de alimentos, dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sugerem que a oferta de alimentos deve crescer 20% nos próximos dez anos.  As regiões tradicionalmente fornecedoras desses produtos, como é o caso do Brasil, Estados Unidos e Europa, verão suas produções e seus excedentes aumentarem nos próximos anos.

Ainda que a produção na Ásia e na África cresça, também devem aumentar os impactos de questões como segurança alimentar, que exigirão atenção no médio prazo. Como vemos nesse momento, no caso da peste suína africana que atinge os dois continentes.

Mesmo ao Brasil, em que a expectativa é de que seja o celeiro do mundo, o caminho ainda precisa ser ajustado. É necessário realizar abertura de novos mercados para que essa potencial demanda seja atingida. Há muito trabalho a se fazer, passando por ganhos de produtividade, sustentabilidade da cadeia e melhorias em todos os elos da cadeia. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), é esperado um crescimento de 40% na produção do agronegócio brasileiro até 2050, enquanto para os Estados Unidos 10%, União Europeia 12% e China 15%.

Um lado importante dessa moeda é o consumidor. Este já vem desempenhando um papel relevante nos últimos anos. Somado a isso, uma população mais velha exigirá uma dieta mais rica em nutrientes, a inspeção da qualidade dos alimentos, e as preocupação com a sustentabilidade das cadeias, devem cada vez mais serem importantes e permearem o destino do abastecimento e as regulamentações nas próximas décadas. Esse fator fará com que as indústrias de alimentos e de insumos tenham que se adaptar a diferentes normas e criar novos métodos e ingredientes (ambiental, social e eticamente sustentável).

Junto ao crescimento econômico, o que o capitalismo faz melhor é a inovação – e esta é a segunda grande tendência apontada nos estudos. Haverá inovações em abundância. Biotecnologia nos curará, tecnologia da informação vai nos conectar ainda mais, e haverá mesmo novos aparelhos no mercado de ciência política, o debate será cada vez mais promovido pelo Twitter, Facebook, Instagram e seus descendentes.

Para a pecuária brasileira, é a oportunidade de melhorar a gestão de nossas fazendas, de investir em tecnologia para incrementar o rendimento e alavancar os ganhos. Teremos que passar pelo desafio de implementação dessas tecnologias, mas elas virão, estão aí. Ferramentas como o Big Data, quantificando, qualificando e respondendo questões importantes devem se intensificar, levando respostas em tempo real. Sem falar em melhorias que já vemos e que chegarão da inovação da nutrição animal e genética.

Muitas empresas, como é o caso da DSM, vêm oferecendo soluções como o programa de gestão, se aproximando de seus clientes, promovendo uma melhoria contínua dos processos. Testando e implementando novas ferramentas de acompanhamento do rebanho em tempo real, sem falar nas soluções inovadoras em nutrição animal.

É certo que, nesse novo cenário que se descortina, as oportunidades para pecuária brasileira no mercado global são grandes. Mas toda a cadeia precisa fazer sua lição de casa. O produtor precisa adotar melhores práticas, capacitar-se, escolhendo os melhores insumos, e cuidar da sanidade animal. Já o governo deve garantir a regulação e  reformas que possibilitem ao produtor e a todos os agentes da cadeia um ambiente de negócios propício.

A terceira grande tendência refere-se à revolução social. O que vai acontecer quando as mulheres foram mais de 50% da força de trabalho? Fique de olho, as empresas mais inovadoras já estão explorando a crescente diversidade de força de trabalho em termos de gênero, geografia, idade, sentimentos e valores. Mas essa é uma conversa para um próximo artigo. Assim como, a possibilidade de aparecer um cisne negro...

 

Nota: O cisne negro (Black Swan) é um conceito criado pelo filósofo Nassim Taleb. Segundo o qual, um evento pode ser considerado um ponto fora da curva. Com isso, o mercado tende a precificar como menos provável e menos devastador do que realmente é, já que modelos de risco, mesmo ao prever o futuro, se baseiam no passado. Eventos como crises globais, atentados terroristas em grande escala como o de 11 de setembro, são exemplos de cisnes negros que são praticamente impossíveis de serem previstos.

Fontes:

The Economist: Megachange: The world in 2050 by Daniel Franklin,Franklin (Author)

Embrapa: Megatendências globais até 2050 - SEIXAS, M. A.; CONTINI, E. (2018)

ONU: World Population Prospects 2019

PwC: Megatendências – Projeções World in 2050

Infomoney – Black Swan

 

 

 

 

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