Periparto, a fase mais importante para a vida da vaca e para o bolso do produtor

Periparto, a fase mais importante para a vida da vaca e para o bolso do produtor

27/05/2017 | Autores: Marcelo Grossi Machado - Assistente Técnico Comercial da DSM e Pedro Henrique Vilela - Promotor Técnico Comercial da DSM

A pecuária leiteira é vista há séculos como um setor de baixo desempenho e rentabilidade. Casos de sucesso nesta atividade são sempre muito elogiados.

Segundo o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2014), o Brasil produziu 35,17 bilhões de litros no ano (formal e informalmente entregues), em um rebanho de 23.064.495 vacas ordenhadas. Este número deixa o ingrato valor de produtividade/animal/ano de 1.524 litros ou 4L/cab/d a média brasileira. Parte deste valor pode ser discutido quando retiramos da conta os animais “não especializados”, isto é, explorados em regime de subsistência ou mesmo sem o foco comercial. Este rebanho é estimado em torno de 9 milhões vacas ordenhadas/ano. Mesmo após esse desconto, é obtido valor estimado na faixa de 4.000L/vaca/ano que, na melhor das hipóteses, fica bem distante de outros países, independentemente dos sistemas de produção aplicados neles. 

Outra parte desta ineficiência também é explicada pela falta de cuidados adequados durante a lactação (ambiência, alimentação, plano genético etc.). Porém, quando a realidade de médios a grandes produtores brasileiros especializados é avaliada, é possível ver que, reprodutivamente, os rebanhos estão muito aquém daqueles benchmarks considerados ideais para o período de serviço, e o intervalo de partos, que resulta em um animal com produção baixa durante o ano e rebanhos altamente desequilibrados (muitas vacas secas para poucas em lactação e muita boca para alimentar sem produzir).

Mas por que estas vacas são inseminadas com 120, 150, 180, 210... dias em lactação e não cedo como o recomendado?  Mesmo onde a observação de cio (taxa de serviço) e a eficiência de inseminação (taxa concepção) são razoáveis, estes animais só demonstram cios férteis bem tarde após o parto, em razão de complicações: metrite, mastite, cetose e retenção. Praticamente todas as doenças de vacas em lactação poderiam ser reunidas nesta fase e o maior erro é não entender que o período que vem antes é muito mais importante do que a lactação em si. Segundo (Godden, 2003), 25% dos descartes de vacas ocorrem até 62 dias de lactação, advindos especialmente de casos de retenção de placenta ou derivados dele.

Por ser um problema silencioso e muito comum nas fazendas, alguns produtores esquecem que, nessa fase, a vaca precisa do máximo de cuidados. O período de 30 dias antes do parto e 30 dias após é de crucial companhamento. A ingestão de alimentos é mínima e só retorna à normalidade de 45 a 70 dias após o parto; a sua produção de leite atinge o máximo muitas vezes antes da ingestão; o seu sistema digestório não estava adaptado às dietas de lactação; e o seu metabolismo corre contra o tempo para dar conta de recuperar o status normal (involução uterina, produção de colostro etc.). Isso traz uma série de enfermidades, que, muitas vezes, é precificada apenas em termos de tratamento (veterinário, antibiótico, anti-inflamatório), mas que, na prática, representa de 15 a 20% do custo total (Liang, 2013).

Dependendo da fonte consultada, um dia em aberto de uma vaca pode valer de R$ 4 a R$ 12/dia e uma retenção de placenta pode, por exemplo, segundo Grummer et al. (2003) e De Vries (2006), aumentar em até 42 dias o período de serviço da vaca. Além disso, as perdas relacionadas à lactação variam de 2 a 5L/cab/d (Block, 1984) no pico e, para cada litro de leite no pico, uma vaca com persistência acima de 90% de produção perderia até 200L na lactação, o que geraria um valor final de cerca de 400 a 1.000L/lactação. Os valores de cetose podem variar de R$ 1.000 a R$ 2.000/ caso e de casco e mastite de R$ 300 a R$ 1.500/caso (Liang, 2013).

Fica claro o quão massivas são as perdas nesta fase, o que leva os técnicos da DSM a preferirem indicar maiores investimentos no pré e no pós-parto do que no lote de alta produção. Apesar de já estudada há décadas, esta fase continua gerando erros na maioria das fazendas. Valores ótimos praticados hoje em dia nas melhores fazendas são: <8% de retenção de placenta com 24 horas, <10% de cetose clínica, <25% de cetose subclínica, <5% de deslocamento de abomaso e <20% de casos de mastite clínica nos primeiros 30 dias de lactação. Como está a sua fazenda? Você está medindo?

Os três pilares desses distúrbios se encontram nos seguintes pontos:

1) Estresse ambiental/físico;

2) Escore de condição corporal;

3) Uso de dietas bem balanceadas.

No primeiro ponto, uma ótima maneira de começar é evitar ao máximo os partos ajudados, o que inclui treinar mão de obra para interferir somente em casos necessários, e efetuar o correto acasalamento dos animais, para evitar bezerras desproporcionalmente grandes em relação à mãe. Também é essencial proporcionar a melhor ambiência que a fazenda puder, incluindo sombra (>14m²/cab), preferencialmente natural (árvores); ambiente drenado e limpo; e, pelo menos, 1m/cab de cocho. Trabalhos diversos também mostram que a ventilação e a aspersão durante esse período poderiam aumentar em até 5L/cab/d a produção em 280 dias (Tao et al., 2011). Tem sido cada vez mais comum o manejo levando-se o lote pré-parto para um ou dois banhos diários na sala de espera das fazendas, nos horários mais quentes do dia, para maximizar o consumo de matéria seca durante parte do dia.

O lote pós-parto é outro em que se observa extremo descaso, pois se trata normalmente de um lote inexistente (dificuldade de lotear, manejo e montagem de vagão com poucos animais) em fazendas médias e menores. Normalmente, estes animais são jogados nos lotes “hospital” e a ordenha é feita junto a animais em tratamento ou com mastite, sem respeitar a linha de ordenha, contaminando animais com a saúde já debilitada. Outro manejo comum é colocar esses animais nos lotes de maior produção. O problema nesse sistema se dá na alta quantidade de concentrado consumida nesta fase, que pode levar, dependendo do desafio do lote, a casos de acidose. Porém, independente da produção, a presença de um animal debilitado em um lote já com dominância definida, mesmo com espaço de cocho adequado, não permite que este se alimente de maneira correta, impactando em consumo de matéria seca e perda de saúde. É importante que esta categoria tenha o seu próprio lote com todos os cuidados ambientais mencionados no pré-parto, ou que fique pelos primeiros 30 dias em um lote de menor concorrência (novilhas, por exemplo).

Quanto ao segundo item, animais com escore abaixo ou acima de 3,25 ou 3,5, também são mais sujeitos à retenção de placenta e a outras desordens de periparto (i.e. cetose) devem ser evitados, corrigindo as dietas em final de lactação em longo prazo e dietas de período seco em curto prazo. Sempre que possível, é importante que o animal também seque neste mesmo escore, pois a mobilização excessiva de gordura durante o período seco (60-30 dias antes de parir) pode aumentar a incidência de tais doenças no pós-parto. A separação de novilhas e vacas nessa fase também deve ser buscada para otimizar o consumo.

Na terceira observação, é importante ressaltar que, apenas ao retirar os animais do pasto (sistema mais comum durante o período de vaca seca no sistema brasileiro) e fornecer de 1 a 4 Kg de ração por dia, já é de imensa valia para a adaptação da microbiota ruminal e a redução de casos de acidose aguda no pós-parto. Outro ponto importante é trabalhar com níveis acima de 14,5% de proteína bruta nas dietas de préparto para o máximo desenvolvimento de glândula mamária e a obtenção de até 2L/cab/d durante toda a lactação dos animais (Santos, et al., 2001).

Dietas excessivamente energéticas no préparto também devem ser evitadas, porém o excesso de fibra também tem se mostrado grande inimigo na futura lactação. Valores em torno de 100 a 150% da energia do NRC devem ser buscados (Janovick e Drackley, 2010).

Outro assunto importante diz respeito à indicação constante do uso de sais aniônicos nas condições brasileiras. A presença de pastagem, mesmo que pouco abundante (com alta concentração de Potássio, que atua como agente contrário ao sucesso desse tipo de dieta) e a falta de refinamento no conhecimento das corretas concentrações de ânions (Cloro, Enxofre etc.) e cátions (Potássio, Sódio etc.) nos alimentos e na água dos animais não permite afirmar que esses animais possam estar sob o desafio de dieta altamente catiônica. Assim, o efeito da dieta aniônica é variável no impacto da retenção, indo de 0 até 50% de redução.

Como extensivamente estudado pelo professor Jesse Goff ao longo de décadas, os valores-alvo devem ser em torno de -15 a -50meq/100g MS nas dietas 30 dias antes do parto, apesar de estudos mais recentes desenvolvidos pelo professor José Eduardo Portela e colaboradores mostrarem que estes valores podem ser alterados dependendo da extensão do período de pré-parto.

A medição de pH urinário deve ser aplicada com frequência, buscando valores de 6 a 6,9 para animais holandeses e mestiços de zebu, e de 5,5 a 6 para jerseys e jersolandas. É vedado o uso de sal mineral ou sal branco nessa fase, caso se opte pelas dietas aniônicas. Dietas com valores acima de 0,8% de Cálcio e 0,35% de Magnésio também devem ser observadas.

No pós-parto (até 11 dias), também é essencial o monitoramento dos níveis de Beta-hidroxi-butirato (BHBA) ou corpos cetônicos através dos diversos instrumentos portáteis disponíveis no mercado, para avaliar se os animais estão em correto escore e, também, para tratar somente os animais realmente necessários (drench, propilenoglicol etc.). Valores acima de 1,2mg/dL já têm sido usados para classificar o animal como em cetose subclínica.

A mineralização também é crucial: o uso de Minerais Tortuga pode reduzir em até 8 pontos percentuais a incidência de retenção de placenta (Batista, 2009) e a aplicação dos níveis OVN® - Optimun Vitamin Nutrition para as vitaminas A, D3, E e Biotina também é essencial para a redução dos casos de deslocamento de abomaso (Qu et al., 2013), imunodeficiência e mastite (Smith et al., 1997).

O Betacaroteno, ou pró vitamina A, também já se mostrou uma ótima ferramenta de manipulação de situações de estresse oxidativo, advindas de adversidades ambientais ou nutricionais (situação comum nas fazendas brasileiras) e demonstrou queda de até 8 pontos percentuais em retenção de placenta (Oliveira, 2015) e melhoria da eficiência reprodutiva (Arechiga et al., 1998 – 14 pontos percentuais na taxa de concepção aos 90 dias; De Ondarza et al., 2009 – 11 pontos percentuais na taxa de concepção aos 105 dias).

Lembre-se: as vacas secas de hoje serão as suas vacas em lactação amanhã! E o que você tem atualmente no curral não poderá ser demasiadamente alterado após os erros cometidos no passado!

A DSM oferece as melhores soluções para esta fase e é pioneira no desenvolvimento de tecnologias nutricionais específicas para a fase mais crítica da vida da vaca. Consulte um de nossos técnicos e aprenda a fazer a correta nutrição e o monitoramento desses 60 dias.

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