Os ácidos graxos ômega-3 e a saúde cardiovascular

Por: Dr. Kevin C. Maki, Chief Scientist and Dr. Mary R. Dicklin, Senior Scientist, Midwest Biomedical Research Center for Metabolic and Cardiovascular Health

Resumo

  • Muitos estudos foram conduzidos sobre os efeitos da suplementação com ômega-3 para melhorar a saúde cardiovascular, mas resultados aparentemente conflitantes deixaram muitas pessoas confusas.
  • Há uma necessidade contínua de novos dados científicos para informar futuras diretrizes de ingestão e administração de ômega-3 .
  • Um novo estudo sugeriu uma associação entre a ingestão elevada de peixe e de ômega-3 e um risco mais baixo de mortalidade.

Nas manchetes

Ácidos graxos ômega-3 estão no noticiário ultimamente. No mês passado, pesquisadores relataram que os maiores consumidores de gorduras ômega-3 apresentavam um risco 15 a 18% menor de morte por doença cardiovascular, tal como ataque cardíaco e AVC, em comparação com aqueles que consumiam menores quantidades de ômega-3. Estar entre os 20% dos indivíduos que mais consomem peixe, em comparação com os 20% que menos consomem, também se associou a um risco 10% menor de morte por causas cardiovasculares.1 Esses achados se basearam no Estudo da Dieta e da Saúde (Diet and Health Study) dos National Institutes of Health-American Association of Retired Persons (Institutos Nacionais de Saúde - Associação Americana de Aposentados, NIH-AARP), que incluiu mais de 420.000 homens e mulheres acompanhados por uma média de 16 anos.

Esses resultados foram relatados imediatamente após os autores de uma análise amplamente divulgada de ensaios clínicos ter concluído que havia pouca evidência de benefícios cardiovasculares com a suplementação com ômega-3.2 As manchetes conflitantes criaram uma certa confusão sobre o que as evidências científicas estão de fato indicando no que se refere aos ácidos graxos ômega-3 na dieta e a saúde cardiovascular. Este post tem o objetivo de explicar por que os especialistas tiraram conclusões diferentes e oferecer uma perspectiva no que se refere aos pontos fortes e fracos das evidências atuais.

Recomendações nutricionais

Recomendações nutricionais frequentemente enfatizam o consumo regular de peixe e frutos do mar, uma vez que uma maior ingestão foi associada a menor risco de vários resultados adversos, especialmente doenças cardiovasculares. Uma recomendação recente da Associação Americana do Coração (American Heart Association), por exemplo, recomendou a inclusão à dieta de 1-2 refeições com frutos do mar por semana. A ingestão média diária de ácidos graxos ômega-3, contudo, está muito abaixo dos níveis recomendados em todo o mundo, incluindo países desenvolvidos.

Dietas ricas em ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa foram associadas mais fortemente a um menor risco de morte cardíaca em comparação com outros tipos de eventos cardiovasculares, tais como ataques cardíacos não fatais e AVCs. A ingestão mais elevada e níveis séricos mais elevados de ácidos graxos ômega-3 foram consistentemente associados a um menor risco de morte cardíaca (isto é, morte por ataque cardíaco, ritmo cardíaco anormal e insuficiência cardíaca), mas não de ataques cardíacos e AVCs não fatais. O processo que causa a morte durante um ataque cardíaco ou em insuficiência cardíaca é, frequentemente, um ritmo cardíaco anormal, o que resulta em contrações desordenadas e ineficazes em bombear o sangue.

Limitações das evidências disponíveis

Boa parte das evidências dos benefícios do maior consumo de ácidos graxos ômega-3 vem de estudos observacionais. Neste tipo de estudo, a ingestão pela dieta e/ou os níveis sanguíneos são medidos, após o que os participantes são acompanhados no decorrer do tempo caso haja relações entre as medições e a ocorrência de eventos cardiovasculares. Este tipo de estudo pode ser muito útil, mas é sempre limitado pela possibilidade de que as pessoas que consomem quantidades baixas e as que consomem quantidades elevadas de ácidos graxos ômega-3 podem ser diferentes de outras maneiras. Por exemplo: pessoas que consomem muito peixe podem prestar mais atenção na saúde e, assim, ter outras características capazes de influenciar o risco cardiovascular, tais como praticar mais exercícios, ingerir uma dieta no geral mais saudável ou fumar menos.

Estudos intervencionais, conhecidos como ensaios randomizados controlados (ERCs), são, de maneira geral, considerados mais confiáveis para a avaliação da influência de uma intervenção ou tratamento nutricional sobre o risco de uma doença. Nesse tipo de estudo, os participantes são distribuídos aleatoriamente para receber uma intervenção ou outra, como, por exemplo, um suplemento de ômega-3 ou um placebo inativo. Diversos estudos deste tipo foram conduzidos para avaliar os efeitos dos suplementos de ômega-3 (ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosahexaenoico (DHA)) sobre o risco de doença cardiovascular assim como de outras doenças e fatores de risco. Como notado acima, uma análise recente desses estudos não produziu evidências claras de um benefício. Contudo, muitos desses estudos apresentavam diversas limitações sérias, o que aumenta a confusão. As duas principais limitações dos estudos intervencionais conduzidos até o momento foram o uso de dosagens baixas de EPA + DHA e foco em resultados compostos, que incluíram diversos tipos de eventos cardiovasculares. De fato, a morte cardiovascular é o resultado para o qual tanto os estudos observacionais quanto os ERCs sugerem a maior probabilidade de benefício.

Descobrindo o ômega-3

No ano passado, um estudo publicado no Journal of Clinical Lipidology explorou os dados de ERCs disponíveis sobre a suplementação com ômega-3 e o risco de morte cardíaca.3 Catorze ensaios clínicos com mais de 71.000 sujeitos foram identificados para a avaliação e metanálise primárias de maneira a se comparar a frequência cumulativa de eventos de morte cardíaca entre aqueles que tomaram ácidos graxos ômega-3 e os grupos de controle. Isso mostrou um risco 8% menor de morte cardíaca em sujeitos que tomaram ômega-3. Deve-se observar que, quando a análise foi limitada a estudos nos quais a dosagem usada foi >1 g/dia de EPA + DHA, os resultados sugeriram uma maior redução, de 29%, da morte cardíaca.

Este ano, publicamos um comentário enfatizando a importância de ensaios adicionais com maiores dosagens de EPA + DHA (mais de 2 g/dia).4 Os resultados de estudos com biomarcadores nos quais os níveis de EPA + DHA foram medidos no sangue sugerem uma relação entre níveis sanguíneos mais elevados de ômega-3 e menor risco de morte cardíaca. Cada unidade (desvio padrão) de aumento do nível de biomarcador de ômega-3 sanguíneo se associou a uma redução de cerca de 12 a 15% da morte cardíaca. A maior parte dos ensaios clínicos concluídos até a presente data usou uma dosagem que se esperaria elevar o nível sanguíneo em somente meia unidade. Seria de se esperar que isso produzisse um efeito muito modesto sobre a morte cardíaca, de cerca de 6 a 8%, o que se alinha com o que as análises das evidências de ERCs mostraram. Isso sugere a necessidade de mais estudos usando dosagens mais elevadas. Esses achados também enfatizam a importância de se medir os níveis sanguíneos de ácidos graxos ômega-3 para confirmar a conformidade e garantir que o grupo de intervenção esteja exibindo um aumento suficientemente grande em comparação com o grupo de controle para se esperar um benefício. Estudos futuros deverão almejar um aumento no grupo ativo em comparação com o grupo de controle.

Também é importante notar que há diferenças entre os três principais ácidos graxos ômega-3, o EPA, o DHA e o ácido alfalinolênico (ALA). O EPA e o DHA, conhecidos como ômega-3 de cadeia longa, são amplamente reconhecidos como tendo a maior importância funcional em todo o organismo. Os benefícios do EPA e do DHA são ilustrados por um recente comunicado da European Food Safety Authority (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar) de que há uma “relação positiva entre o EPA e o DHA na função cardíaca”. O ALA é um componente do EPA e do DHA, mas, nos humanos, essa conversão acontece em quantidades muito pequenas. Assim, EPA e DHA pré-formados – encontrados no peixe e em outros frutos do mar, assim como em suplementos alimentares de ômega-3 – são preferidos para garantir que quantidades adequadas de EPA e DHA sejam consumidas.

Os ômega-3 EPA e DHA são os nutrientes mais estudados. Há mais de 34.000 artigos publicados e houve 3.300 ensaios clínicos com humanos até esta data. Para obter mais informações sobre os potenciais benefícios do EPA e do DHA sobre a saúde, baixe os artigos da DSM sobre os ômega-3 e a saúde cardíaca.

Publicado

22 Agosto 2018

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Referências

[1] Y. Zhang et al., ‘Association of fish and long-chain omega-3 fatty acids intakes with total and cause-specific mortality: prospective analysis of 421,309 individuals’, J Intern Med., 2018.

[2] A.S. Abdelhamid et al., ‘Omega‐3 fatty acids for the primary and secondary prevention of cardiovascular disease’, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2018, issue 7.

[3] K. Maki et al., ‘Use of supplemental long-chain omega-3 fatty acids and risk for cardiac death: an updated meta-analysis and review of research gaps’, J Clin Lipidol., vol. 11, 2017, p.1152-1160.

[4] K. Maki and M. Dicklin, ‘Omega-3 fatty acid supplementation and cardiovascular disease risk: glass half full or time to nail the coffin shut?’ Nutrients, vol. 10, no. 7, 2018.

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